CARTA DE ENCERRAMENTO DO IL



CARTA DE ENCERRAMENTO DO IL (PDF)

Após 8 anos de existência, o Instituto Lukács noticia seu fechamento. Na última assembleia ocorrida virtualmente nos dias 10, 11 e 12 de outubro de 2020, a maioria dos associados nela presentes optou por extingui-lo. O Instituto Lukács nasceu grande demais para existir neste mundo em que a lógica da mercadoria dita os caminhos da razão. O IL já brotou num cenário econômico e político em que a crise do capital se aprofundava e colocava em evidência o esgotamento do modelo de gestão “socialdesenvolvimentista” do Estado brasileiro, colocado em prática pelo Partido dos Trabalhadores. Por outro lado, sem ignorar as mediações, um movimento ativo dos trabalhadores praticamente inexistia e a esquerda revolucionária sobrevivia como era possível no interior da crise teórica do marxismo, vendo-se afastada cada vez mais tanto dos espaços de formação dos movimentos de massa quanto das próprias organizações da classe trabalhadora. Tais elementos contavam ainda com a inexistência de espaços para publicações fundadas nas teorias de Marx, Lukács e Mészáros, fundamentalmente, e a necessidade da difusão de teoria revolucionária com custos acessíveis aos estudantes e trabalhadores. Foi nessa conjuntura que o Instituto Lukács foi criado, com uma tarefa hercúlea diante da “etapa histórica de aprofundamento da crise estrutural do capital”, qual seja, “a constituição de mediações fundamentais para o processo de difusão e socialização do legado revolucionário produzido pelos clássicos do marxismo”. Essa tarefa, imprescindível, passava pela “necessidade fundamental de desenvolver uma cultura de combate à perspectiva reformista da tradição marxiana”¹. Desde seu nascimento, o IL tinha como ponto de partida teórico a centralidade ontológica do trabalho como fundamento do ser social. Já no campo político, defendíamos que o proletariado seria o portador da condição histórica que pode revolucionar radicalmente a sociedade, por ser a classe produtora do conteúdo material da riqueza. Assim, ele deve extrair do complexo do trabalho as “condições fundamentais para a superação do sistema do capital” e para a construção de uma sociedade livre e associada, criando um sistema social baseado na igualdade substantiva e na autodeterminação dos indivíduos. O Instituto Lukács surgiu com o intuito de travar uma luta ideológica na sociedade brasileira e latino-americana, para expor os limites da via parlamentar e recolocar no debate político-teórico os fundamentos ontológicos da superação da propriedade privada e do patriarcalismo. Essa cultura de combate explicitou-se no Manifesto de Fundação, na crítica contra “as posições reformistas, que privilegiam a luta de posições no interior da sociedade burguesa e que fazem do parlamento o espaço preferencial de conquistas para a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora”. Para os fundadores do IL, estava nítido que “o cretinismo parlamentar, que se refugia na pseudodistinção entre governo e Estado como mecanismo de defesa de um governo nacional popular, serviria apenas para as sempre necessárias reformas sociais “que criam novos padrões de expropriação da riqueza social produzida pela classe operária”. Enfim, o IL surgiu como um instrumento para a publicação de “textos e materiais articulados com a luta revolucionária de superação do capital e de suas diferentes manifestações ideológicas, tais como o pós-modernismo e o neoliberalismo”. Para tanto, era imprescindível a formação teórico-política interna entre os associados, para que se efetivasse a defesa de uma linha editorial pautada em “uma ontologia fundada na compreensão dialética e materialista do mundo”, contraposta “a qualquer explicação fragmentada da realidade e que recorre aos preceitos transcendentes, típicas das manifestações religiosas e idealistas que dominam a subjetividade humana em tempos de crise estrutural do capital”. Contudo, o Manifesto de Fundação não foi capaz de consolidar uma orientação teórico-política que viesse a agregar, com o tempo, o trabalho coletivo e voluntário necessários ao fortalecimento do Instituto Lukács. Foi, então, que surgiram propostas que contemplavam a formação e o aprofundamento político-teórico coletivo. Criou-se um espaço para publicação de ensaios e discussões políticas no site do IL e a Assembleia Geral foi reconfigurada para garantir a reflexão teórica coletiva. Os anos se passaram. Os estudos propostos nas assembleias não foram realizados a contento e o debate político interno passou a ser cada vez mais escasso, levando ao aparecimento de divergências crescentes quanto à intervenção política conjuntural e eleitoral entre os seus associados. O número de associados foi se reduzindo em razão de escolhas pessoais diversas, sendo a maioria das saídas, ao longo desses 8 anos, relacionada ora à ausência de alinhamento teórico, ora à ausência de alinhamento político. O IL, como exposto, surgiu para ser muito mais que uma Editora, ainda que ser uma Editora disposta a pautar o debate ideológico revolucionário, na atual conjuntura, e com preços acessíveis aos leitores seja uma tarefa histórica necessária e grandiosa. Entretanto, a ausência de formação e aprofundamento político-teórico coletivo impediu que houvesse internamente uma concepção comum e consolidada em torno das atividades coletivas voluntárias realizadas. O sucesso editorial do projeto encobriu por muito tempo esses problemas, criando uma grande confusão em relação às causas e às consequência da crise interna que estávamos vivendo, a qual vinha prejudicando efetivamente a preservação da proposta originária do Instituto Lukács. Rapidamente, os esforços relacionados à manutenção e ao fortalecimento do espírito coletivo deram lugar ao predomínio da atividade de lançar títulos, sem que houvesse a construção coletiva de estratégias equivalentes de distribuição dos livros para que pudessem chegar a um maior número de leitores. A continuidade do Instituto, nos moldes em que ele foi pensado, foi progressivamente sendo comprometida, provocando um arrefecimento de nossa capacidade de trabalho voluntário coletivo. O decréscimo da produção interna, também provocada pelas saídas de associados, tornou-se um dos graves problemas para a concepção original do IL. Os problemas foram se avolumando e o esvaecimento progressivo da convergência teórica e da concepção de trabalho coletivo originais acabou por transformar-se em crescente desgaste nas relações pessoais no interior do núcleo-Maceió, seu órgão mais ativo desde o início. O êxito editorial do IL na publicação de grandes clássicos do marxismo e das obras dos associados não foi acompanhado pela formação teórica e política dos seus integrantes, gerando um grande desgaste interno. A maioria dos presentes à assembleia concluiu que seria impossível “reformar” o IL, pois a conjuntura em que foi criado e a maneira com que pôde realizar seus objetivos têm raízes profundas; revela as contradições que organismos com princípios revolucionários não têm conseguido superar na conjuntura de crise do capital que se aprofunda. É por essas razões que, por maioria, os associados do Instituto Lukács decidiram – com muito lamento – encerrar o seu ciclo de atividades, para preservar o seu legado de 54 publicações, em 8 anos, e de uma organização independente, sob os princípios do autogoverno e do trabalho voluntário do coletivo de associados, alheios à lógica do lucro. Assim, queremos evitar que o IL tenha o mesmo fim que arruinou outras Editoras e instituições da esquerda brasileira movidas por princípios revolucionários. Julgamos que esse momento de encerramento do IL favorece o aprofundamento da reflexão acerca da verdadeira natureza da crise político-teórica do marxismo, desdobrando-se em debates acerca da possiblidade de constituição de organismos que possam, de forma duradoura, alinhar-se aos fundamentos ontológicos do ser social necessários à verdadeira superação do capital e do trabalho alienado. Estaremos em funcionamento até, no máximo, o mês de maio de 2021, com uma Diretoria transitória, cujo objetivo é concluir a publicação dos últimos títulos em 2020, a distribuição e a destinação do estoque restante de livros e providenciar as demais medidas necessárias ao encerramento do Instituto Lukács. Somos gratos pelo permanente apoio recebido dos leitores. Outras experiências existem e poderão surgir. A nossa se encerra aqui, plena de acertos e desacertos a superar-se no futuro histórico.

Instituto Lukács Maceió, outubro de 2020.

¹Esta e todas as outras referências foram retiradas do Manifesto de Fundação do Instituto Lukács.

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